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quarta-feira, 29 de julho de 2015

Comentário livresco: Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres, de Clarice Lispector



Editora Rocco, 1998

E pelo mesmo fato de se haver visto ao espelho, sentiu como sua condição era pequena porque um corpo é menor que o pensamento – a ponto que seria inútil ter mais liberdade: sua condição pequena não a deixaria fazer uso da liberdade. Enquanto a condição do Universo era tão grande que não se chamava de condição. A condição humana de Ulisses era maior que a dela que, no entanto, tinha um cotidiano rico. Mas seu descompasso com o mundo chegava a ser cômico de tão grande: não conseguira acertar o passo com as coisas ao seu redor. Já tentara se por a par do mundo e tronara-se apenas engraçado: uma das pernas sempre curta demais. (O paradoxo é que deveria aceitar de bom grado essa condição de manca, porque também isto fazia parte de sua condição.) (Só quando queria nadar certo com o mundo é que estraçalhava e se espantava.) E de repente sorriu para si própria com um sorriso amargo, mas que não era mau porque também ele era de sua condição. (Lóri se cansava muito porque ela não parava de ser.) p. 20
 
 
                                                        ***
 
A palavra AMOR: Lóri me espeta com as agulhas de sua tessitura: “Quem sou eu”? Não se sabe... Corra, Lori, corra! Fuja do mundo, de Ulisses, mas não fuja de si. Clarice, de antemão, avisa-nos: “Este livro se pediu uma liberdade maior que tive medo de dar”. Entendo. Há algo aqui que não cabe em lugar algum. Uma ponta de dor ou uma alegria irreprimível: um mundo de epifanias, sobressaltos, um estar sendo e não saber que se é. Lóri que ensina, também quer aprender. Ulisses vai na esteira desta descoberta; tão longa e dolorosa. Mas ambos compreendem que viver é sofrimento. E sofrem; delegam ao mundo a sua natureza sensível e solitária. Mas afinal, sobre o que nos fala Clarice? Fala-nos sobre estes corpos ambulantes que somos, mas que descobrem, por meio da dor ou do amor, a alegria de estarem vivos. Fala-nos da nossa condição desajeitada para com o mundo, de um rasgo no peito, de uma precariedade sem fim. Sei que este livro me moveu para algum lugar, talvez não muito distante, da minha “vida a vida”. Sei também que cabem reflexões mais profundas acerca de um texto tão denso e poético, mas me limito a sentir. Eu só queria dizer. E disse.

 

domingo, 3 de maio de 2015

2015: algumas leituras


PARIS É UMA FESTA [ERNEST HEMINGWAY]: Hemingway viveu em Paris por alguns anos fazendo parte do círculo de escritores e artistas expatriados na década de 20.  Tal experiência é relatada em Paris é uma festa. A leitura vale pela escrita enxuta, irônica e apaixonada, sobretudo pela relação do autor com outras personalidades literárias da época, como Gertrude Stein, Ezra Pound e Scott Fitzgerald.  Hemingway nos fala também de sua escrita pelos cafés de Paris, embora vivesse uma vida modesta. O filme Meia Noite em Paris, de Woody Allen, retrata com perfeição esse período.


LARANJA MECÂNICA [ANTHONY BURGESS. ALEPH, 2004. 224 p.]: Só tenho a dizer, ó, meus irmãos!, que Laranja Mecânica é um livro primoroso. A tradução me parece de qualidade e foi muito divertido embrenhar-me pelas gírias “nadsats” [inclusive o livro é acompanhado de um glossário, mas preferi não consultá-lo para manter a “estranheza” da leitura]. A transposição de Kubrick para a tela de um anti – herói tão controverso não poderia ser melhor [assista ao filme homônimo, por favor!].


ARQUITETURA DO ARCO - ÍRIS [CÍNTIA MOSCOVITH. RECORD, 2004. 176 p.]: Sempre gostei da escrita de Cíntia. Uma prosa poética de fôlego, de rara sensibilidade. Arquitetura do Arco – Íris traz dez contos, divididos em duas partes, de temática diversa e permeados por um olhar “clariceano”. Confesso que a segunda parte do livro não me emocionou tanto. Estou curiosa por ler Essa coisa brilhante que é a chuva, seu último livro.

 
O MENINO DO PIJAMA LISTRADO [JOHN BOYNE. COMPANHIA DAS LETRAS, 2007. 186 p.] : Tenho certa resistência com algumas leituras de obras literárias adaptadas para  o cinema, mas Menino do Pijama Listrado não me decepcionou. Bruno, um menino de nove anos que vive em plena Segunda Guerra Mundial, constrói uma sincera amizade com Shmuel, também de nove anos, que mora “do outro lado da cerca”. E ao longo da narrativa acompanhamos [angustiados!] a inocência infantil descambar para um final tragicamente inusitado... É claro que lembrei de O diário de Anne Frank ou A menina que roubava livros. Recomendo também o filme homônimo, dirigido por Mark Herman, lançado em 2008.

 
Até.

 

 

 

sábado, 14 de fevereiro de 2015

Livros: os melhores de 2014!


Olá, gente bonita! Então, quanto tempo hein?! Pois bem. Mais um ano se foi e é chegada hora daquele velho “balanço de leituras” (com certo atraso, ok!). No entanto, vou falar apenas daquelas leituras super especiais, ao invés de listar todos os livros lidos (e foram muitos!). Confesso que em 2014 li muito mais poesia (e comprei) do que prosa, mas não me arrependo! Vejamos minha humilde listinha:

 
Lavoura Arcaica [Raduan Nassar]. Levei algum tempo para descobrir Raduan Nassar. Já ouvira algo sobre o autor, mas ainda não havia me lançado em sua escrita. Lavoura Arcaica é a prosa poética mais bela que já li. Comentário livresco aqui.


Pergunte ao Pó [John Fante]: “Você sabe com quem está falando?” Arturo Bandini é um daqueles personagens bem peculiares. Vale à pena conferir as peripécias deste aspirante a escritor. Quem está neste mundo de “escrita independente”, certamente se identificará (porque não é fácil, minha gente!).

Otelo [Shakespeare]: Não há muito que dizer sobre Shakespeare, não é mesmo? Mas posso afirmar que Otelo e Hamlet são minhas peças favoritas (por enquanto). Recomendo fortemente tudo que o bardo escreveu, inclusive a poesia.

A Revolução dos Bichos [George Orwell]: Esta obra compõe minha série particular de “livros que já deveria ter lido” (e a lista é enorme!). Mas nunca é tarde. Orwell tem um texto enxuto e nos concede uma aula sobre política e poder. Sem mais.

Esse Ofício do Verso [Borges]:  Comentário livresco aqui.
 

Poemas [Wislawa Szymborska]: Wislawa foi uma grata surpresa. Há um estilo bem peculiar nesta poeta polonesa. Indico a leitura do poema “Recital da autora” para terem uma idéia do que estou dizendo...


Primeira Poesia [Borges]: Este foi meu primeiro contato com a poesia de Borges. O poema “O Sul” é um dos meus favoritos. Depois de ler algumas edições bilíngües, publicadas pela Companhia das Letras, resolvi comprar sua obra poética completa (em espanhol). E sinto-me feliz por isso.


A Branca Voz da Solidão [Emily Dickinson]:  Eis que adquiro esta edição bilíngüe da Iluminuras, traduzida por José Lira. Pois bem. Já que sofremos [cronicamente] de boas traduções de poesia no Brasil [tanto em qualidade, quanto em quantidade], temos que usufruir do que o mercado editorial oferece, embora com algumas ressalvas. Essa tradução de Dickinson é boa, mas algumas coisas me desagradaram. Refiro-me ao caso das “recriações”, mas compreendo que o fato possa residir em um princípio teórico escolhido pelo tradutor. Caso semelhante é a edição bilíngüe da Companhia das Letras, dedicada aos poemas de Elisabeth Bishop, e traduzida por Paulo Henriques Britto. Apesar disso, a edição de Emily está bem caprichada.

 
 E por falar em leitura...
 
Nota 1: Livros lidos em 2015 (porque o ano está só começando!)

·         Rei Lear (Shakespeare)

·         Alice no País das Maravilhas (Lewis Carrol)

·         Luto e Melancolia (Freud)

·         Fernão Capelo Gaivota (Richard Bach)   (me julguem!)

·         O Sentido de um Fim (Julian Barnes)

·         Ovelhas Negras (Caio Fernando Abreu)

·         O Pequeno Príncipe (Antoine de Saint-Exupéry)

·         Exercícios (Hilda Hilst)

 

           Nota 2: Leitura em andamento:

·         Doze Contos Peregrinos (Gabriel García Márquez)


 
E você, caro leitor, já selecionou suas melhores leituras de 2014? Conta pra gente!
 
Por hoje é só, até a próxima!
 

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Esse ofício de Borges



Pois bem. Em um passeio pela Bibliotheca Pública de Pelotas [sim, ainda frequento bibliotecas!] encontrei um pequeno livro chamado Esse ofício do verso [Companhia das Letras, 2000. 160 p.], escrito por Jorge Luis Borges. Na verdade, trata-se da transcrição de seis palestras proferidas pelo autor argentino na Universidade Harvard, em 1967 e 1968.

Borges discorre acerca da poesia e o universo da escrita numa linguagem fluida e cativante. Na presente obra temos seis preciosas lições repletas de referências culturais, literárias e exemplos que ilustram sua fala: “O enigma da poesia”, “A metáfora”, “O narrar uma história”, “Música da palavra e tradução”, “Pensamento e poesia” e “O credo de um poeta”. Chamou-me a atenção um trecho contido na última conferência, no qual o autor ressalta a importância da leitura em sua vida:

“Tenho para mim que sou essencialmente um leitor. Como sabem, eu me aventurei na escrita; mas acho que o que li é muito mais importante que o que escrevi. Pois a pessoa lê o que gosta - porém não escreve o que gostaria de escrever, e sim o que é capaz de escrever.”

Não há muito o que dizer sobre  Borges. Quase tudo já foi dito. Mas é importante aprendermos com ele. Sua humildade deveria se estender a todos que se valem do ato criativo. Em um mundo tomado por tantos “Arturo Bandini”, só Borges para colocar -nos no devido lugar.

       
           Five stars no Goodreads! Por hoje é só, até a próxima!
 
    
 

domingo, 22 de junho de 2014

Um breve olhar sobre a poética de Vanessa Regina, por Leonardo Alves


Minha primeira impressão ao ler os poemas de Vanessa Regina foi a de um estranho encantamento. Poemas curtíssimos, com raros adjetivos, mas que conseguem, em poucos versos, levar um amálgama de sensações ao leitor. Poesia pictória, imagética e sensorial. E poesia elíptica: as elipses contribuem para a riqueza da expressão; o não dito em seus versos auxilia com presteza ao poder encantatório dos poemas. Metáforas bem articuladas, silêncios oportunos e um ritmo leve, fluido. Trabalho delicado de ourives, imantado com a perplexidade e a sensibilidade de uma alma ultrassensível.
Em muitos dos seus poemas, há uma quebra de expectativas, que se configura como um belo expediente formal. A linearidade é subvertida de forma graciosa. Não é a chave de ouro, como se poderia esperar, mas o momento de cisão, que dá a falsa impressão de fragmento:

afago tua têmpora prateada
cravo os dentes no teu sumo

e transbordam exílios

a fonte

         O belo e delicado poema acima mostra bem uma das facetas de sua lírica: o amor. Mas não há pieguice ou vulgaridade. O afeto é o disfarce do verso “afago tua têmpora prateada”; enquanto fulcro carnal é insinuado no segundo verso: “cravo os dentes no teu sumo”. Há plenitude nesse amor: carnal e afetividade se coadunam. Por outro lado, o hermetismo se mostra forte nos versos finais: o que seria esse lindo recorte “transbordam exílios”? Um amante andarilho, sem norte, que veio pousar no seu regaço? E o fecho, desestabilizador: “a fonte”. Não farei conjecturas. Deixo ao leitor tirar suas próprias conclusões. Resta a este humilde exegeta, dizer que tal verso, mínimo, ficou gravado na mente, como um labirinto e uma aprazível sensação de mistério. 
 Não é uma poesia fácil, de comunicação imediata com o leitor. É preciso pensar, reler para poder alcançar a sutileza do arsenal imagético e suas sugestões. Construir mentalmente suas metáforas inesperadas. Outro exemplo de sua poética enxuta e cintilante:

quisera eu 
oferecer as mãos vazias 
para o teu hálito de pedra

e um tempo, mínimo
para perscrutar o que não 
se soube do poema


           Nessa meia dúzia de versos, temos sobrepostos no mesmo contexto a poesia como meio de vida; e a vida frente à finitude. A força do texto vem da angústia de que se a morte batesse à porta do eu lírico, encontraria, ambas, inconclusas: 1) a vida, ainda não vivida na magnitude necessária; 2) e a poética, também nos seus dilemas de expressão. As mãos do eu lírico não estão vazias, plenas para encarar o “hálito de pedra” (morte): há muito peso, ainda não desvencilhado, de artefatos mundanos: dilemas, sobressaltos, solidões. De uma forma lacônica, está o grito: o tempo arguido ao infinito para que a vida e a poesia estejam prontas, antes de a “indesejada das gentes” (como diz Manuel Bandeira) bater à porta. Para a poeta, não existe uma coisa sem outra: vida é poesia; poesia é vida. Não há como desarmar esse laço que une as duas.
A lírica de Vanessa me traz, de bom grado, a lembrança de outra voz feminina. Não qualquer voz, mas a da grande poeta Emily Dickinson.  Há vários elementos que ligam a poesia atualíssima de Vanessa e a lírica de Emily: os diamantes pequeninos, mas robustos da linguagem, a ausência de título; uma lírica que esconde o sentimento dentro da imagem insólita e do voo arrojado das figuras de estilo.
O que é mais importante e mágico nesse encontro com a programática dickinsoniana é que ele não surgiu de uma imitação/emulação, mas de um acaso que rege as emoções dos seres sensíveis - dos poetas. Caso Vanessa imitasse a poeta estadunidense, não teríamos um terço da expressividade candente dos seus versos. Vanessa chegou ao patamar lírico, similar ao de Emily, por conta de uma irmandade de alma com a poeta de “There is a june when Corn is cut”. A forma intensa de ver o mundo: seja nas pequenas coisas do dia a dia, nos objetos cotidianos – expandindo a força expressiva da mesa, do armário, das teias de aranha; seja nos temas universais da lírica, como amor, o tempo e a morte. Essa aproximação que faço entre as duas tem um só objetivo: enfatizar a linhagem da escrita de Vanessa Regina.
Há um alargamento de solidão nos poemas de Vanessa. Uma ansiedade dramática de dizer sua dor, o deslocamento do ser na “terra devastada” e sua histeria. Mas esse “grito” é podado, aplainado, limado, até que surjam versos que cantam sussurrados, como a melodia doce de uma avena. O grito fica nas elipses. Cabe ao leitor buscar, por trás da musicalidade de seus versos, o áspero, o brado e o desespero: sentimentos atualíssimos, vindos do instinto de autopreservação do EU: não ser aniquilado dentro de uma conjuntura mundana cada vez mais reificada:

 das dores tantas 
 que movem mundos de dentro

 de silêncios que  pedem
 o voo típico 
  
 não há muito o que dizer
 não há
 
         O mundo de dentro não cabe no mundo de fora: é tempo de alegria, Iphone, evasão barata e sentimentos presos num uniforme – ser diferente é engendrar o caos. O mundo interno fica como murmúrio em seus versos. Mais vai se abrindo, à medida que sua lírica (em progresso) cresce com a intensidade de seus versos mais recentes:

aqui no sul profundo

olhos de marés tão rasas 

 não carrego afetos 
 que enfeitam janelas
 porque tenho sede 


          Dentro de suas temáticas, está também o amor irrealizado, ou melhor, o amor que é corrompido pela convivência desgastante e o marasmo. Não é novidade dizer que os temas da literatura são poucos. No entanto, é alentador saber que os mesmos temas podem ser abordados de formas tão díspares:

porque é domingo
diálogos impessoais
e uma polidez que me cai bem

naveguei até aqui
e vi cores de um azul infinito

âncora para a minha memória
navios estilhaçados sobre a mesa de jantar 


       O tema é o mesmo de um poema bem conhecido entre nós: “Soneto de Separação” (Vinicius). Mas a forma é tão outra, tão pessoal. Até hoje, me vem essa rica imagem verbal “navios estilhaçados sobre a mesa de jantar”. O amor que apodrece, como uma madeira jogada no quintal: mas eis que surge uma flor de lirismo, pequenina e única.
Se na forma, os poemas de Vanessa lembram Emily Dickinson, há alguns ecos de outra voz feminina: esta, sim, talvez lhe tenha influenciado a dicção, principalmente em versos mais sombrios, nos quais a conversa com a morte se torna familiar: Sylvia Plath. Eis um exemplo:

há quem diga que o vermelho cobrirá meus pés

e as manhãs tão serenas
- aquelas de um silêncio desastroso - 

permanecerão mínimas
sobre o assoalho pálido da cozinha

eu digo que não

         O eu lírico do poema mostra as imagens que insinuam suicídio: o vermelho cobrindo os pés, o “silêncio desastroso”. Mas a tensão chega ao fim com verso-fecho: “eu digo que não”. É o grito, já falado, da sua poesia. Esse debater-se no mundo interior: a inadaptação que faz com que os sentimentos transbordem. Sorte que há a mão da artesã para conter o superficial. Em sete versos, podemos vislumbrar um suicídio como fuga cogitada, a imagem desse ato e, finalmente a negação, como força anímica se sobrepondo a esse momento de contemplação.
         Vanessa me confessou ter demorado até chegar ao seu atual estilo: começou com poemas longos, caudalosos, uso reiterado de rimas. Aos poucos, foi abandonando expedientes que, segundo ela, não acrescentavam voz a sua poesia. De certa forma, a concisão, o hermetismo foi uma reação à primeira poesia, ainda em laboratório. Cortou rimas, adjetivos, excessos de sentimentalismos. Cortar: eis um verbo importante para a poesia de Vanessa. O que resta é o essencial. Afinal, por que se alongar, se algo pode ser dito em poucos versos? É pertinente recorrer a Ezra Pound, referindo-se ao verbete que designa “literatura” em alemão: dichten; a palavra significa também condensar.
E é nesse habitat que Vanessa se encontrou e transita com segurança: no verso curto (de 3 a 8 sílabas), na poesia sucinta, onde cada palavra, cada conjunção tem um efeito específico e especial. Sua lírica está em desenvolvimento. Mas tenho certeza que um livro nesse momento, com o melhor do que tem escrito, causaria grande comoção no meio literário. Um livro de Vanessa provaria uma verdade antiga, há muito proferida por Octavio Paz: o fim da tradição da ruptura. Não há compromisso com “ismos” salvadores da nova poesia, com cartilhas pós-modernas, com o pastiche aquoso, tão festejado por alguns intelectuais. Se seus versos são bons, deve-se a força lírica, expressão verbal laborada e um grande comprometimento com a metáfora viva: poesia ainda se faz com palavras.




Conheça o trabalho da poeta em Há quem diga que não era aquela música

quarta-feira, 26 de março de 2014

Chá de Hortelã [comentários livrescos]: Lavoura Arcaica, de Raduan Nassar


e como dói
Lavoura Arcaica
Raduan Nassar
Record, 1989
200 páginas

Por Vanessa Regina

Pois bem. Eu não queria escrever sobre este livro. Ou até queria. Foi duro, difícil, áspero. E de uma poesia sem fim. Raduan causou uma tremenda desordem na minha pacata vida de leitora. Raduan Nassar. Como eu vivi até agora sem ler este cara? Pois é. Antes tarde do que.
Em Lavoura Arcaica (1975), André,  o personagem central da narrativa,  expõe o caos em que se transformou sua vida interior devido à opressão familiar representada pela figura do pai. Logo após abandonar o lar materno, André é procurado pelo irmão Pedro que tenta demovê-lo e levá-lo de volta ao seio da família. Inicia-se então uma vertiginosa reflexão acerca das complexas relações familiares e em que medida isso nos afeta enquanto adultos [além de inúmeras outras questões que a obra suscita].  Além desse “desajustamento”, André ainda mantém uma relação ambígua com a irmã Ana, talvez a fonte de todo o seu descontrole [agora chega de spoiler e leiam o livro, pelamor!]. Qualquer comentário a se fazer aqui será insuficiente para demonstrar o quanto Raduan Nassar é maravilhoso!
Eu só queria ressaltar que a sua linguagem poética é de tirar o fôlego!  Há tempos uma obra literária não me sacudia tanto. Lavoura me doeu. E ainda dói. Mas tudo passa. Ou não:

“O tempo, o tempo e suas águas inflamáveis, esse rio largo que não cansa de correr, lento e sinuoso, ele próprio conhecendo seus caminhos, recolhendo e filtrando de várias direções o caldo turvo dos afluentes e o sangue ruivo de outros canais para com eles construir a razão mística da história...” 

(p.184)

Five stars no Goodreads!

Por hoje é só, até a próxima!

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Uns tomam éter, outros cocaína. Eu leio poesia, por Vanessa Regina


Pois bem. Nem só de prosa vive o homem. A vida clama por poesia. Precisa. É quase uma necessidade básica. Confie em mim. Sou suscetível a rompantes de lágrimas e emoções à flor da pele quando leio um poema [ok, não pareço muito confiável]. Mas falo sério. Tenho calafrios só de pensar que aquele poeta há anos fora de catálogo finalmente será reeditado. Os casos mais recentes são os autores Paulo Leminski e Ana Cristina Cesar, ambos agraciados pela Companhia das Letras em 2013.  Alegria, alegria. Depois de alguns trabalhos ilícitos na noite consegui grana para adquirir os dois exemplares. Caros, mas que valeram à pena. É como doar um rim para comprar um livro. Precisando, a gente faz [mas ainda não estou no lance do tráfico de órgãos].
Mas vamos ao que interessa: não vim aqui para falar das coisas ilegais que faço, mas dessas duas belezuras aqui, ó: 

Capas que são “puro amor”
                                              Esse bigode tem poder

Em edições bem acabadas, a Companhia das Letras fez um bem imenso aos [pífios, raros, espectrais] leitores de poesia: resgatou Ana C. das profundezas e catapultou Leminski como um dos mais vendidos.  Momento raro para a poesia brasileira [tudo bem, vamos considerar o efeito “Leminski” nas redes sociais].  O projeto gráfico de ambas as obras é super descolado, um lance pop para atrair a atenção dos leitores. Bom de ver, bom de ler. Em breve, comentários livrescos!
Pois bem. Semanalmente [eu acho] pretendo compartilhar com os leitores deste humilde blog coisinhas relacionadas ao mundo vasto mundo da poesia. Compras, empréstimos ou furtos livrescos do gênero que está sempre no limbo, mas também no coração! Para quem curte prosa, pule duas casas e dance a macarena, ai!

Por hoje é só, até a próxima!

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Esperando Camus, por Vanessa Regina

imagem: google
#comentários livrescos

O Estrangeiro -  Albert Camus
Best Bolso
Tradução: Valerie Rumjanek.
2010
110 páginas
R$15, 00

Pois bem. De personagens “espinhosos” minha memória literária está cheia! Depois de ler Melville e encarar Camus fiquei naquele “estado de inércia existencial” e nada mais fez sentido... . Claro, quando li Beckett o choque foi bem maior [acreditem, um vazio sem fim], e agora com este texto do Camus não foi diferente. Imobilidade [naquele sentido que comentei no post anterior] é a palavra chave para estas duas últimas leituras [+ o Beckett].
"Hoje, mamãe morreu. Ou talvez ontem, não sei bem." Estas são as primeiras palavras do livro. Daí, você pensa: puxa, era a mãe do cara! E isso não é nada perto do que se desenrola ao longo da narrativa. Mersault, personagem principal, se envolve em situações inusitadas, ao ponto de cometer um crime [spoiler, aqui!].  É um indivíduo resignado, seguro em sua zona de conforto, impassível; justamente porque não espera absolutamente nada da vida, assim como Bartleby ou as personagens de Beckett [sem comparações, mas é impossível não tecer aproximações entre as obras].  E aquele sentimento de impotência invadindo o peito e só.
Bem como qualquer leitura capaz de nos transformar em sujeitos mais lúcidos [aquela lucidez clariceana que te vira do avesso], eu mudei com estes caras [Beckett, Melville e Camus], sem falar em Dostoiévski, Kafka, Sartre... [papo para outra hora menos tensa]!
Recomendadíssimo! Five stars no Goodreads!

Por hoje é só, até a próxima!

Prefiro não escrever ou quem sabe eu até possa , por Vanessa Regina

imagem: google



Bartleby, o escriturário – Herman Melville
L&PM Pocket Plus
Tradução:  Cássia Zanon
2008
96 páginas
R$10, 00

                A história de Bartleby  me chegou aos ouvidos por acaso [existe desde 1856, mas nunca é tarde!], ao ler uma resenha sobre o livro de Enrique Vila-Matas intitulado Bartleby & Companhia, em que o autor toma por base o texto/história original de Melville. Matas cunhou, desde então, a expressão “Síndrome de Bartleby”, mal que supostamente atingiria alguns escritores após a criação de uma grande obra, isto é, uma tremenda crise criativa [ainda não li o livro do Vila-Matas, mas estou curiosa!].
Bartleby, de Melville, é um daqueles funcionários burocratizados e mecânicos que habitam o nosso cotidiano; eficiente ao principiar seu ofício no escritório de um advogado,  mas que de repente se opõe ao sistema [vamos relativizar a palavra sistema aqui, ok?],infringindo regras e descumprindo ordens: seu mantra favorito é  “prefiro não fazer”. E não faz. Absolutamente nada. Bartleby pratica suas insubordinações com uma naturalidade espantosa; sem falar na parede de tijolos... [se você ainda não leu este livro...faça um favor para sua alma!] . Melville constrói  uma grande metáfora da imobilidade, em todos os sentidos. Nada se transforma, nem o homem, nem a sociedade [lembrei muito de Beckett, outro favor para sua alma, já!]. Godot que não vem, Bartleby que nada faz. Difícil é digerir rapidamente uma leitura tão densa como esta. 

Recomendadíssimo! Five Stars no Goodreads!


Por hoje é só, até a próxima!